quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tropa de Elite 2, ou o labirinto de José Padilha e de todos nós - Deputado Federal Chico Alencar - PSOL/RJ

Tropa de Elite 2, ou o labirinto de José Padilha e de todos nós - Deputado Federal Chico Alencar - PSOL/RJ
Tropa de Elite 2, ou o labirinto de José Padilha e de todos nós
José Cláudio Souza Alves - 20/10/2010

Tropa de Elite 2, na esteira do primeiro, mas sem o marketing da clandestinidade pirata, já nasce fadado ao sucesso de público.

Dá continuidade a elementos do primeiro, mas inclui modificações determinantes que, na tensão com aquilo que se repete, revela o incrível labirinto em que se meteu José Padilha. Ou será o labirinto de todos nós?

Na conta do que se mantém, temos a espetacularização da violência, ingrediente determinante em filmes de ação, a apologia institucional do Bope, a banalização da carne barata de traficantes, a degradação da corrupta polícia militar e a humanização do capitão nascimento, via complexo familiar.

Padilha, porém, revela uma sensibilidade aos acontecimentos que marcaram a vida do Rio de Janeiro, desde o primeiro filme, permitindo assim o avanço na complexidade do tema.

Surpreende a vinculação da violência ao poder político como eixo mais forte da trama. Não que ele esteja ausente no primeiro, mas agora ele se transforma no alvo.

Independente da caricaturização do vilão, indispensável ao filme de ação e, portanto, o consequente maniqueísmo e exacerbação de uma visão conspiratória, o grande mérito se revela na percepção do Estado enquanto organizador do crime. Tese por mim desenvolvida no meu livro Dos Barões ao Extermínio, sobre os grupos de extermínio na Baixada Fluminense.

A introdução do intelectual de esquerda, ridicularizado inicialmente e legitimado no final, faz uma costura secundária, mas determinante desta tese.

A inspiração no trabalho do deputado estadual Marcelo Freixo, à frente da CPI das milícias na Alerj, ganha contornos quase hitchcoquianos, com a sua presença nas imagens iniciais do filme, a exemplo do que o mestre do suspense fazia consigo mesmo nas suas películas.

Neste filão, Padilha passeia pelo conjunto de políticos formado por deputado estadual, secretário de segurança pública e governador, além dos seus subordinados, revelando parte do que no filme é denominado de “sistema”.

Protegido pela licença ficcional, algo profundamente invejado por um sociólogo nos limites da academia, militante na Baixada e morador de Vigário Geral, o diretor desnuda o “sistema” sem pudor, construindo um final feliz, não isento de angústias, dada a ampliação da visão para o âmbito nacional e a continuidade do “sistema”. Gancho para a continuidade da série.

Adentramos, assim, no labirinto de Padilha e nosso carregando velhas e novas questões.

A convivência entre o reduzido protagonismo do deputado da CPI das milícias, a homogeneização rebaixada dos moradores de favelas, invisíveis no filme, e a centralidade do heróico e humanizado capitão Nascimento vão além dos limites da obra cinematográfica.

Invisibiliza, a exemplo do que fez com os moradores pobres, os grupos econômicos que financiam os políticos e maximizam seus lucros. Tangencia as empresas e serviços de comunicação que vendem o sangue junto com a campanha eleitoral. Ignora os bancos que lavam todo o dinheiro das milícias e os empresários e banqueiros que financiam 7 mil reais na compra de um quilo de cocaína boliviana e recebem 47 mil reais de retorno bruto apenas com adição de fermento para bolo, sua venda no varejo e a execução dos vendedores, para garantir a paz dos consumidores.

A humanização do Nascimento avança pelo complexo familiar ampliado, levando-o ao paroxismo de se tornar depoente chave da CPI das milícias e determinar a prisão dos elos mais frágeis do “sistema”.

Deixando de ser o cavaleiro negro, ou melhor, a caveira negra, opta pelo caminho branco da lei. Faz meia culpa ao confessar que não sabia mais porque matava pelo Bope, produz a ruptura determinante ao acusar a polícia de responsável pela organização do crime, mas traz silenciosamente consigo a sombra do injustiçado soldado André Matias, que apenas matara mais um vagabundo e foi executado por acreditar na integridade da polícia.

Matias, alterego de Nascimento, anuncia o controle político que o “sistema” exerce e morre por acreditar neste mesmo “sistema”. Ingenuidade? Talvez.

A dubiedade de Matias é a mola propulsora de Nascimento. Como romper o “sistema” por dentro? Como alterar o Estado Crime a partir dele próprio? Como ser do Bope e não obedecer ao secretário de segurança e governador? Como compreender o crime na sua complexa teia de relações com a economia, política e sociedade? Como não reduzi-lo à lógica militarizada predominante? Como não repor a centralidade da tropa incorruptível que executa os pobres e manda para as grades os poderosos. Uma tradição no Brasil, onde o sistema judiciário garante prisão especial ou vala, de acordo com a classe social?

E agora Padilha? E agora Nascimento? Quais são os limites da ação por dentro do “sistema”? Paliativos necessários que salvam milhares de vidas? Reforço à militar lógica da integridade da tropa a serviço do bem e da execução? UPPs da zona sul para as Olimpíadas? PACs em áreas militarmente controladas e eleitoralmente encurraladas? Prisão de alguns para permanência de muitos? Mudar tudo para que tudo permaneça como está? O que fazemos nós, não ficcionais personagens?

Afinal, quando iremos ver a cara do “sistema”? Sabemos dos riscos de vermos a nós mesmos no espelho. Mas só há este caminho se não quisermos eleger Nascimento para deputado e vê-lo assassinado, prisioneiro em sua própria casa ou, pior de tudo, comprado pelos acordos que sustentam reeleições e a governabilidade de uma sociedade controlada por uma classe dominante assassina e cínica. Ou o cinismo já nos engoliu a todos, pois todo mundo tem seu preço?

Obrigado Padilha por entrar conosco neste labirinto. Aqui começa o real.

Oh! Vos que adentrais estes umbrais, deixai para trás toda a ficção

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